Gebom (subtítulo AINDA em construção)


Lá em cima do piano tem um copo de veneno...

Verusca Petrona voltou esta semana para discutirmos a relação. Eu disse a ela que estava notando uma certa procrastinação da parte dela em executar seus trabalhos e honrar seus compromissos comigo, e que achava que os motivos dela nem sempre eram tão válidos etc.

Interfonou ontem aqui da portaria, mas ainda não conseguiu pegar o elevador para me encontrar. Eu com tudo preparado, bolinho, café, as toalhas e os talheres de que ela gosta, e ela presa lá embaixo. Diz que o trânsito está muito ruim e que, com sorte, ela pega uma carona amanhã, quando a moradora da cobertura pretende içar um piano.



Escrito por Ge Bom às 10h06
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Radiante

O convite era expresso: Todos de laranja.
 
Milcalice resolveu comemorar o aniversário com uma festa temática. Um big luau para 1200 pessoas, ao pôr do sol e na beira da praia. Seriam doze horas de festa initerrupta.
 
Eu achei que o coquetelzinho lá na clínica, só para os mais íntimos, já tinha sido mais do que suficiente. Ouvi dizer que estava irretocável. Mas não, ela queria mais, ela pensa grande. E caro.
 
- Mas por que laranja, Milcalice? Patrocínio dos citricultores do interior de São Paulo?
 
- Mas tu és um bronco mesmo né ô Dr. Rph. Bronco e insensível. É um desagravo à sabotagem.
 
Me explicou e eu não entendi. Mas peguei uma conversa entre o manobrista da clínca e a copeira, e concluí que tinha algo a ver com aviões. Ela acha que a Gol está passando por momentos difíceis. Primeiro aquela história do jatinho na contra-mão. E agora esse apagão aéreo. A festa seria uma espécie de homenagem subsidiada.
 
Achei fácil o terreno que ela alugou de um pescador lá pelas praias do leste. Foi só encontrar o Boeing 737-800 estacionado na frente. Turbinas ligadas. Comissários indicavam o caminho para os banheiros e para e o cercadinho Vip.
 
Lá dentro, todos os segmentos da alta sociedade dela, se esbaldavam com bolinhos de cenoura servidos por aeromoças. Embalados por drinks de suco de pêssego e uma música que tentava ser uma releitura do sertanejo trance, os convidados iam tomando conta do picadeiro. No centro de tudo, Milcalice fantasiada de sol.
 
Do presidente do sindicato dos açogueiros ao dono da maior empresa de moto-boys da periferia, estavam todos lá. E todos começaram a ficar irritados com a demora da grande surpresa da noite.
 
Cheio de dedos, tive que interromper Milcalice. Naquele momento delicado, ela dava uma entrevista para Luciana W. , a colunista do maior jornal da cidade.
 
- Milcalice, no convite estava escrito que ia ter uma grande surpresa nesse teu aniversário laranja. O povo tá cobrando.
 
- Ai, Dr. Rph, eu sei. Mas é que a Fernanda Abreu cancelou tudo de últiama hora. Sei lá, acho que foi depois que eu sustei o cheque do cachê.
 
- E agora, Milcalice? B.C.G. tá ameaçando chamar a ANAC. Disse que não vem mais animar as tuas recepções, que é a maior queimaceira prá ela.
 
Na pick-up 78, o DJ residente Fernando Henriques, já incitava a massa com porque parou , parou porquê ?
 
- Ih, Dr. Rph, acabei criando um problema para ti, né...
 
Não deu tempo nem para perguntar qual era o problema. Quando dei por mim, já estava no palco, de peruca e tubinho de couro, cantando Rio quarenta graus, cidade maravilha...
 
Mas não tem jeito, sempre tem um que sai falando. Hoje foi Milcalice. Virou as costas e foi embora. Disse que nunca mais poria os pés em festinhas daquele tipo.


Escrito por Rph às 15h11
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Sua Excelência, A Candidata

Milcalice está em campanha. Quer ser síndica. Do meu prédio.
 
- Mas e pode?
 
Não quis nem perguntar qual foi o suborno que ela deu para os outros moradores, mas desconfio que eles estejam fazendo exames de graça lá na clínica. Não que o ultra-desnecessário ultra-som do polegar direito da Dona Yolanda, a vizinha de baixo, tenha levantado essa suspeita, mas desconfio.
 
O item principal do programa de governo dela é o ar condicionado do vizinho. Sim, nós temos um vizinho, que por um mero detalhe é um hotel, e que tem um ar condicinado potente. Muito potente. E faz um barulho ensurdecedor. E Milcalice comprou a briga. Estava cansada de eu chegar na clínica de mau-humor por uma noite mal dormida. O fato de eu pedir a ela que abrisse a clínica no horário porque eu ia chegar mais tarde, a incomodava profundamente. Quer dar um fim nisso.
 
Bastou mencionar essa promessa para ganhar a simpatia do primeiro ao décimo segndo. O coitado que tentava a reeleição não teve outra escolha a não ser retirar a candidatura.
 
- Se eleita, prometo tranformar o ar condicionado do vizinho em ventilador de teto com barras de gelo por baixo. Vou transformar a vida daquele gerente num inferno.
 
O discurso neo-nazista começou a me assustar quando ela passou a se cercar de seguranças skin-head tatuados com a suástica.
 
E eu já não aguentava mais a maratona de viagens pelo interior.
 
- Mas Milcalice, essa eleição é um evento local. Predial, para ser mais exato. Para quê a audiência com o prefeito de Xiriri da Serra?
 
Não soube me respnder, mas o fato é que todos na prefeitura daquele buraco, onde faz 40 à sombra, estavam de faixa e camiseta: "Agora é Milcalice! Milka para presidente! Milka tem os dez dedos!" Entre panfletagens, tapinha nas costas e homens-placa, marcamos um debate. Ela e ela mesma. Eu de moderador.
 
- Milcalice, tu não podes me entregar prontas as perguntas para eu te fazer. Isso não é democrático.
 
- Ô Dr. Rph, a segunda do terceiro bloco, tu tens que fazer com uma entonação dramática, quase chorando. Vai ser com essa que eu vo faturar já no primeiro turno.
 
O  debate no salão de festas foi acirrado. Ela enfrentando ela mesma com firmeza e agressividade. A coisa esquentou lá pela metade:
 
- A nobre candidata está me ofendendo. É claro que eu vou proibir o hotel de receber hóspedes no verão. Eu exigo uma tréplica.
 
- Mas Milcalice a nobre candidata és tu mesmo!!!
 
E ela ia trocando de microfone sucessivamente, debatendo as idéias com ela mesma, xingando debochando, elogiando, num ritmo tão alucinado que hipnotizou os espectadores. Não deu outra. Eleita por unanimidade.
 
Se licenciou do cargo de minha secretária, do qual já estava desemcompatibilizada há três meses, e se instalou no escritório do síndico. No caso, a minha sala de estar.
 
Deu quinze dias e pediu demissão. Não tinha mais tempo de fazer a unha.


Escrito por Rph às 12h08
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Internáutica

Milcalice me pediu permissão para sair uns dias e fazer um curso de computação. Está de licença já faz dois anos.

 

Cada vez que me ligava, dava uma desculpa diferente. E o pior é que eu ia acreditando. Um hora tinha pegado recuperação em acondicionammento de alimentos perecíveis. Outra hora tinha que ir para Brasília fazer um trabalho de campo com a seita dos Adoradores do Templo de Cristal.

 

Mas na última vez me revoltei:

 

- Ou tu voltas a trabalhar mês que vem, ou não pago mais a mensalidade desse cursinho aí.

 

Me convenceu que era só o tempo de defender a tese de mestrado em Enfoque Jurídico nas Relações de Marketing pela Internet. Relevei, afinal, coitada, talvez fosse a única chance de a pobrezinha subir na vida e deixar de ser explorada.

 

Até fui assistir a banca. Estranhei o local (um barracão na periferia) e o corpo docente que a avaliava (a telefonista, a melhor amiga dela Carolete e o rapaz que coleta sangue aqui na clínica). Mas saí de lá certo que ela tinha criado uma teoria que iria revolucionar o direito empresarial no Brasil.

 

Voltou na semana pasada, cheia de esses e erres, exigindo sala e secretária, e se nomeando minha acessora de informática. Qualquer coisinha, uma mínima dúvida que fosse em relação a programas e computadores, ela dava um jeito de querer resolver. Pudera, a cem reais a hora trabalhada. Extra.

 

- Tá, Milcalice, então manda esse e-mail lá pro pessoal do simpósio para confirmar a minha inscrição.

 

- Positivo, Dr. Rph, são 50 reais.

 

- Ficou louca, Milcalice? O texto já tá pronto, é só mandar o e-mail.

 

- Eu sei, eu entendi, eu não sou burra. Só tô pedindo os cinquentão para pagar os custos operacionais.

 

- Pirou, mulher? Clica em ENVIAR. Prá quê os cinquenta?

 

- E quem é que vai pagar o boy?

 

- ?????

 

- Olha, Dr. Rph, eu não tenho mais cara de enrolar o rapaz, não. Toda vez que ele vem aqui para levar um e-mail que o senhor quer mandar para alguém é a mesma história. Eu fico dizendo para ele passar no final do mês que o caixa tá fraco, já dei vale-exame e o coitado não aguenta mais o gel que eu tô dando como se fosse protetor solar.



Escrito por Rph às 20h49
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De fato, o rapaz tava com a cara que era bolha só. Todo vermelho. E Milcalice dizendo que a conta do mailboy já tava batendo nos quatro dígitos. Aí eu gelei. Será que eu tava manando mensagens eletrônicas demais? Será que ia ter que ser mais criterioso daqui para frente, selecionando só o indispensável?

 

- Não dá, Dr. Rph, assim não dá. Temos que reduzir custos. Sabia que a empresa de internet-entrega cobra por destinatário e não por mensagem que a gente manda?

 

Eu, lívido.

 

- Vamos fazer o seguinte, Dr. Rph, corrente daqui prá frente só as de anjo da guarda e aquelas das criancinhas com leucemia que têm um lap-top do lado da cama de hospital. As outras, se for para mandar, escolhe o resultado que for menos catastrófico. Se pedirem para encaminhar para 12 pessoas em uma hora, manda prá cinco e encara aí uns meses de azar que pior que tá não vai ficar mesmo.

 

Eu, anotando.

 

- Piadas são duas de loira, duas de português e duas de judeu. Por mês. E manda pros teus contatos só um de cada vez, em ordem alfabética. Os da família pula, porque podes contar pessoalmente.

 

Eu, nem discutindo, tudo para colocar o balanço no azul.

 

- E chega dessas histórias de gente que acorda na banheira sem rim, dicas de segurança no semáforo e essas palhaçadas todas.

 

- Vais querer dizer que não é verdade, Milcalice...

 

Nem me respondeu. Deu uma gargalhada que achei meio de deboche e foi. Se trancou com o boy na minha sala, e foram contar dinheiro. Umas três horas mais tarde, não deu mais. Fui lá cobrar mais agilidade no e-mail do simpósio. Dei os cinquenta reais do serviço e fiquei esperando. Os dois nem se mexeram.

 

- Cadê o resto, Dr. Rph?

 

- Peraí Milcalice, como resto?

 

- Sim, o senhor acha que esse mail vai chegar como? Tem que selar. Se a fiscalização pega o Dejaílson levando um e-mail sem selo vai dar problema. É crime postal.

 

Fiz um cheque de duzentos reais pelo selo prioritário especial só para não me incomodar mais. Corria o risco de ficar sem a inscrição.

 

Final do dia, enquanto eu fazia uma faxina na minha caixa postal e na sala de ultra-som, chega ela com o e-mail de resposta da organização do simpósio e uma conta de mais cenzinho.

 

- Mandaram a resposta a cobrar, Dr. Rph!!



Escrito por Rph às 20h49
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MC Verusca Quebra-Apartamento-no-Leblon

Verusca Petrona arrumou uma briga horrível no condomínio. Enquanto esperava o elevador, hoje de manhã, resolveu dançar e cantar embalada por uma modinha típica da cidade dela. A cidade dela é o Rio de Janeiro. A modinha, no caso, era o funk.

 

-Ô Verusca, tu estás batendo bem da bola, Verusca? Isto aqui é um prédio residencial e de família! Só tem gente quatrocentona aqui no prédio, Verusca! Mas, vá lá, quem foi que viu o teu show?

 

O desembargador do 506 foi o primeiro a testemunhar quando ela disse “aqui só tem cachorras”. Diz que o homem protestou veementemente, avisando a ela que o bull terrier que ele estava tentando despejar há dois anos do 711 era machíssimo, inclusive tinha sido flagrado cortejando uma samambaia da cobertura 16.

 

-Verusca, chama uma ambulância! Ou então me diz que o desembargador do 506 não te viu fazendo a coreografia, Verusca!

 

O quê? Bateram bumbum com bumbum e tudo. Diz que o desembargador gostou tanto da apresentação, que ficou de voltar com um amigo.

 

-Quem, Verusca?

 

Ela não se recordava muito bem do nome do amigo. Era alguma coisa como “Oficial de” e do sobrenome não lembra.

 

-A agenda! Disca pro médico, diz que o meu plano cobre UTI com TV a cabo.

 

Mas ela achou que eu estava me preocupando à toa. O síndico também viu tudo e achou que a Verusca estava bombando.

 

-Ele falou isso? Gostou, é? Mencionou algum abatimento no nosso condomínio deste mês?

 

Não, não mencionou. Disse apenas que a Verusca e a caixa d´água estavam bombando tão bem, que mandaria chamar um encanador para a Verusca e um psiquiatra para a caixa d´água. Compreendi a ironia na hora. Mas a Verusca não.

 

-Faz o seguinte: vaza já pra tua casa e me fica uns três meses sem aparecer aqui no prédio. Eu mando o motorista levar o teu salário em casa.

 

Mas ela me lembrou de que nós não temos motorista. É.

 

-Verusca, me diz que isso foi tudo, que ninguém mais viu coisa nenhuma.

 

Foi tudo. Os dois e o médico foram os três únicos contemplados com a cena.

 

-O médico? O morador mais antigo do prédio, Verusca! O médico é um safenado, todo mundo sabe disso! Ele... digamos assim... saiu andando do episódio?

  

Mancando. Mas deu tempo até de dizer que a Verusca era sangue-bom e tudo mais.

 

-Me fala a frase. A fraaaaaaase que ele falou, Verusca!

 

Ele disse o seguinte: “Alguém deve ter injetado cachaça de alambique nessa Pessoa-Quebra-Barraco”.

 

-Já chega, Verusca. Atrás da água sanitária tem um frasco de veneno de rato. Enche uma taça de cristal, joga uma azeitona verde e traz pra mim. Se alguém perguntar, diz que eu bebo Martini desde a mamadeira.

 

Mas ela fez uma confusão danada e me trouxe álcool puro na taça. No final da tarde, éramos duas a recepcionar os moradores no hall de entrada. Enquanto a Verusca 46 se comprimia perigosamente dentro de um modelito 38, eu cantava e batia panela: “Semos feia mas tamos na moda”...



Escrito por Ge Bom às 21h02
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"Pensa logo, Verusca" ou "Pensa, logo Verusca"

Verusca Petrona andou pensando.

 

-É, Verusca? E no quê, hein?

 

Não me interessava. O ato de pensar, em si, constituía-se numa atividade solitária que só competia ao pensante e a mais ninguém. Mas não deixou de frisar que o pensamento fora, tipo assim, suuuuuperlegal.

 

-Ok, Verusca. Não precisa me contar. Eu não sou curiosa.

 

Naquele momento, bolas vermelhas começaram a surgir na circunferência do meu pescoço. Quando eu estava praticamente sem ar, rendi-me.

 

-Ô Verusca, não dá nem pra adiantar pelo menos o tema do teu pensamento? Só uma pontinha...

 

Mas ela já tinha mudado de pensamento e agora nem se lembrava mais no que é que pensara antes. Ocorre que o pensamento novo conseguia ser ainda mais interessante do que o anterior.

 

-É, é?

 

A cena: eu pendurada no último andar de uma escada bamba de oito degraus, catando o nebulizador.

 

-Verusca, nem me interessa entrar no teu ideário, minha filha. Não quero me meter com as tuas convicções. Te lembras? Eu nem te perguntei como votaste no plebiscito, não perguntei se tu és contra ou a favor de o Jamanta voltar à novela das oito, não te perguntei por que andaste faltando durante todo o mês passado...

 

Aí ela cambaleou. Achou que, de fato, eu não era uma pessoa tão curiosa, que de fato não me metia muito na vida dela. Fez-me prometer que eu ia passar o mês de dezembro sem entrar na cozinha e, em janeiro, não passaria da porta do meu quarto, a menos que eu estivesse com um problema gravíssimo para resolver na rua, então passaria direto do quarto para a saída de emergência. Procurei não me mostrar muito ansiosa.

 

-Eu prometo, Verusca. Agora fala, por favor.

 

Ela pensou que, uma vez que pensava durante o trabalho, deveria ser remunerada por atividade intelectual. Pensando bem...



Escrito por Ge Bom às 19h55
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Le cirque du Leblon

Verusca Petrona tem uma certa simpatia por animais. No caminho entre a casa dela e a minha, hoje, amealhou trinta e cinco.

-Verusca, tem um pato dentro da minha carteira, Verusca...

Nem aí. Ela acha que eu sou uma insensível no trato com o reino animal.

-Não é o caso, Verusca. Acontece que eu preciso tomar banho e tem uma zebra enrolada na minha toalha!

Também não convenceu. A Verusca tem uma personalidade meio forte e quando ela cisma com alguma coisa são no mínimo quinze segundos antes de mudar de idéia. Da última vez que isso aconteceu, um peixe-boi veio parar num tanquinho aqui na sala da minha casa. Ocorre que agora eu estou para vender o apartamento e tem um corretor prestes a tocar a...

(campainha)

Eu ia me encaminhando para a porta quando passou por mim uma casal de raposas. Só deu pra ver que um era macho e o outro fêmea porque, no caso, "ela" estava usando a minha bolsa nova da Le Postiche.

-Verusca, corre aqui! Varre estes animais da minha sala e tranca isso tudo no teu quarto, depois conversamos.

Entraram o corretor e a pretendente. Ela quis imediatamente saber o que eram aquelas bolinhas marrons sobre o meu tapete. Coisa da coelhada da Verusca, mas eu improvisei mostrando a caixinha de cereais do Nescau Balls. Na suíte presidencial, um tecido retalhado e todo retorcido jazia sobre a cama de casal a título de colcha. Os dentinhos do Beagle da Verusca estão nascendo... Mas eu corri e mostrei uma revista de decoração de um hotel seis estrelas na África do Sul. Colchas idênticas.

O corretor quis saber também se tinha morrido alguém recentemente na minha unidade habitacional ou se o caminhão do lixo fazia ponto aqui na frente. Nesse momento, a pretendente passou mal. Tivemos que administrar oxigênio puro para que ela conseguisse minimamente chegar na ambulância estacionada em frente ao edifício. Só então me dei conta de que os bichinhos da Verusca estavam em processo coletivo de digestão. Feijoada.

Abri a porta do quarto dela e estavam lá os trinta e seis assistindo ao Programa do Ratinho. Uma ursa comia o bolsinho da frente da minha bolsa da Le Postiche.

O corretor ligou. A pretendente não se interessou muito pelo imóvel e deverá substituir um pulmão.



Escrito por Ge Bom às 18h51
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Homenagem aos estagiários que começam a trabalhar hoje

Verusca Petrona foi chamada para ser estagiária de multinacional.

 

-É, Verusca? Qual, hein? Alguma gigante do petróleo ou da panificação mundial?

 

Ela pensa que eu caio. Aliás, a Verusca às vezes me dá a impressão de que não me considera uma pessoa altamente intelectualizada.

 

-Verusca, tu podes ir ser estagiária das dez da noite às seis da manhã, ok?

 

Mas ela já estava com tudo engatilhado para ser estagiária das dez da manhã às seis da tarde.

 

-Sim, sei, e posso querer saber o que é que vai ser do investimento que eu fiz no espanador e no balde?

 

Não estava nem “aí, ó” para o meu espanador. Quanto ao balde, que eu fizesse dele um boné para quando fosse correr “com as outras velhotas”.

 

Arrasada, me olhando no espelho e esticando as bochechas pra cima, passei a me interessar pelo estágio que a Verusca ia fazer na multinacional. Perguntei os detalhes, anotei num bloquinho, mordisquei a ponta de um lápis, ouvi Enya... Comecei a fantasiar o vigésimo andar envidraçado de um prédio todo espelhado no coração de Manhattan...

 

-Verusca, eu compro o teu estágio! E estou te promovendo a governanta aqui no meu business multi-habitacional!!

 

Doces, salgados, as empregadas domésticas todas do prédio babando no uniforme novo da Verusca. Foi quando ela se virou pra mim e disse que eu também teria uniforme no meu estágio.

 

-Claro, claro, tailleurzinho preto, escarpin bico ultrafino-plus, camisa de tricoline mil fios passada e engomada, o que mais, Verusca?

 

Apontou, como sempre. Era um pacote pardo. Abri. Calça marrom. Cinto marrom. Conga marrom. Camiseta pólo caramelo. Com bolso. Alguma coisa bordada... O MEU NOME! Atrás, uma rodela enorme e a pergunta: Posso ajudar?



Escrito por Ge Bom às 11h19
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Copiona

Verusca Petrona quer clonar uma batata baroa. Antes que eu despencasse do quinto andar até o térreo de tanto rir, ela me trouxe duas batatas: a matriz e a "clonada". De fato, muito parecidas.

 

-Verusca, e como é que tu podes ter certeza de que se trata de uma batata-clone?

 

Simples, era só olhar. Tinha uma protuberância na batata que fazia lembrar o queixo do Murilo Benício.

 

-Olha, Verusca, eu tenho mais o que fazer. Me dá licença, tá, Verusca? Eu vou dedicar a minha atenção a coisas que realmente mereçam a minha atenção, ok, Verusca?

 

Acontece que, na realidade, eu não tinha mais o que fazer.  E acabei ficando pela cozinha mesmo vendo ela jogar três quilos e meio de batata baroa dentro de um caldeirão juntamente com cuspe de sapo e unha de rã. Eu já ia fazer a minha preleção sobre o preço da batata baroa, ia dizer que eu tinha sido fiscal do Sarney, que fora também militante de uma ONG em defesa dos alimentos amarelos etc. Mas tocou a campainha e a Verusca estava muito concentrada recitando algo como “Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega, te pega dali, te pega de lá”...

 

Fui eu atender. Era o Juca de Oliveira de jaleco branco e um óclão com umas lentes de aumento medonhas. Eu ia perguntar se ele queria um cafezinho, mas eu só tenho o aparelho de meia dúzia, ou seja, jamais conseguiria servir café para os doze Murilos Benícios que entraram em fila atrás do Juca.

 

-Juca, olha, por favor, não repara, não, a casa está meio...

 

Mas ele não gostou de ser chamado de Juca. Apontou um crachá com uma ovelhinha desenhada embaixo da marca Albieri, Dolly & associados.

 

-Ok, então, Seu Dolly...

 

Não era Dolly.

 

-Sei. Não posso crer que o senhor se chame... ... ... Associados?!... Nesse caso...

 

Mas a pessoa em questão já estava de costas pra mim. Enquanto ele discutia com a Verusca se as bocas do meu fogão Lofra seriam suficientes para a experiência, fui para o telefone tentar tirar partido da situação. Fiz uma listinha de globais passando por Carolina Ferraz e Alessandra Negrini, e comecei a ligar tentando fornecer Murilos Benícios em domicílio. Uma delas me pediu para ver se ele tinha a orelhinha bem em pé. Discretamente, apoiei um óculos de leitura sobre a ponta do nariz, mastiguei um toco de lápis, franzi o cenho, cheguei a cadeira giratória para trás e fiz a constatação.

 

-Olha, eu acho que sim. Tem um ali que já está até com as orelhas sem esparadrapo.

 

A Carolina Ferraz se interessou. Perguntou se eram da linhagem Lucas ou Diogo. Acabei me embananando e o negócio não se concretizou. Outra cliente nossa quis saber se tinha jeito de ele vir com o erre menos caipira. Uma terceira perguntou se dava para parcelar em doze vezes no cartão sem entrada. Foi aí que eu vi que esse negócio de clonagem personalizada não ia dar certo.

 

Boa patroa que sou, fui para a cozinha informar os meus sócios de que nós teríamos de encontrar outro filão mais lucrativo. Eles já tinham feito essa constatação. Estavam agora clonando a minha linha telefônica, minhas senhas do banco e o cartão de crédito. No caso do cartão, a experiência foi tão bem-sucedida, que a matriz até se perdeu.



Escrito por Ge Bom às 13h58
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Manteiga no pão

Verusca Petrona viajou na maionese.

 

-Como assim, Verusca? Tu falaste, fizeste ou pensaste alguma coisa completamente fora de propósito?

 

Não, foi sorteada na promoção da Hellmans.

 

-Nesse caso, acho que quem vai viajar na maionese, Verusca, é a pessoa que PAGOU a Hellmans. Tu vais me desculpar...

 

Foi no quarto e voltou com três notas de um real e noventa e nove moedas de um centavo.

 

-O que é isso? Resolveste sacar o teu fundo de garantia?

 

Não, estava me pagando “a porcaria do vidro de Hellmans”.

 

-Olha, Verusca, eu até posso parecer uma patroa meio trouxa, admito. Mas eu preciso te dizer que eu já deixei de cair dezoito vezes no golpe do bilhete premiado. E olha que na última vez eu desisti na boca do caixa!

 

Ok, mas o prêmio era dela e ninguém tascava.

 

-Tasco, sim! Segundo o Direito Romano, Verusca.... Verusca, volta aqui!

 

Saiu correndo com o bilhete premiado. Levantou o braço e eu fiquei pulando tentando alcançar. Não sou dada a golpes baixos, mas, sim, fiz cócegas nela. O bilhete passou para o outra mão. Derrubei a Verusca num tatame. Rolamos no chão. Caímos as duas na piscina. Persegui-a durante quinze minutos ao redor do porteiro. Nada, não houve jeito.

 

Descabeladas, chegamos em casa no fim da tarde, ao que eu resolvi propor uma trégua.

 

-Eu compro esse bilhete, Verusca. Faz teu preço.

 

Ela quis a minha casa na praia mais ticket-alimentação vitalício. Eu ia argumentar que ela estava viajando na maionese, mas achei que não convinha relembrá-la do tema. E, afinal de contas, a Hellmans haveria de querer me levar - de first, naturalmente - para algum destino exótico do pacífico.

 

-Fechado. Onde é que eu assino?

 

Saímos ambas as partes satisfeitíssimas, a Verusca de chapéu de praia e braçadeira, eu de malas prontas para fazer uma única escala no supermercado a fim de resgatar o meu prêmio. Na boca do caixa fiquei sabendo do golpe: a Hellmans me entregou um micropacote de Ruffles com um sachezinho da nova maionese de limão com frutas da estação. Voltei pra casa raciocinando postivamente: pelo menos, quem acreditou no golpe do bilhete primeiro foi a Verusca...



Escrito por Ge Bom às 10h14
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De como a Verusca primeiro pisou cá

Verusca Petrusca entrou pela porta da frente acompanhada de um senhor de terno, e ele, de um abanador. Eu ainda não sabia o nome dela.

 

-Então, minha filha, qual é a sua graça?

 

Mas ela não viu a menor graça e me apontou o de terno. No caso, eu ia entrevistá-la na presença do seu advogado. O abanador era um habeas corpus que desobrigava a candidata a me responder determinadas questões que pudessem complicar a vida dela no futuro emprego. Resolvi ligar para o meu próprio advogado a fim de proceder a entrevista em condições mínimas de igualdade, mas a linha caiu depois de eu ouvir uma gargalhada metálica do outro lado da mesma.

 

-Ok, mas eu preciso saber pelo menos o nome dela. Senão, como entrevistá-la?

 

O advogado, que achou por bem não me dizer o nome dele também, puxou do bolso um comprovante de pagamento do estacionamento do shopping, botou na mesa, desamassou e arrastou com a mão em minha direção.

 

-Sim, o senhor estacionou um veículo de placas LIE-0171 no Shopping Etílico Dois Pra Lá, no dia cinco de maio, às...

 

Mas ele me apontou o verso do documento. Ah, bem. Era uma biografia resumida da moça que se candidatava a uma vaga de doméstica no meu logradouro. Dizia ali que ela só lidava com prataria e que tinha participado do corpo de moças loiras que ajudara a recepcionar a rainha da Suécia quando em visita ao Brasil.

 

-Ela era loira na época? Mas o que que houve depois? Pegou fogo no cabelo dela?

 

O advogado fez um sinal com a mão pedindo que eu fosse adiante na leitura.

 

Prossegui em voz alta: “Trata-se de uma funcionária quatrocentona”.

 

-Ã? – inquiri veementemente.

 

Quatrocentona, me repetiu ele, enquanto a candidata abria a geladeira reconhecendo e elencando uma a uma as promoções do último encarte das Lojas Americanas.

 

-O que é isso? Ela recebia “quatrocentos reais” por mês?

 

Foi quando ela se virou e ameaçou atirar contra a minha pessoa um pote de requeijão light destampado. Mas o advogado interveio antes, me explicando que ela só trabalha em casa de famílias quatrocentonas, cachorros quatrocentões, essas coisas de pedigree.

 

Resolvemos encerrar a entrevista ali mesmo, eu fiquei de pensar e ela também. Saiu por uma porta, entrou pela outra, disse que já tinha pensado e que oportunamente redigiria um contrato. Além dela, eu contei outras sete malas que cruzaram a fronteira do meu domínio residencial.

Escrito por Ge Bom às 13h37
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Por baixo do pano

Verusca Petrona recebe o mensalão.

 

-Tu não ousarias fazer isso com a nação brasileira, Verusca! Eu exijo que tu devolvas até o último centavo!

 

Voltou com 21 centavos em moedas de um e despejou sobre a mesa dizendo não fazer questão nem do último nem do penúltimo centavo. O resto não devolvia.

 

-Verusca, vê bem, eu não posso ter em casa alguém que será chamado a depor a qualquer momento no Congresso Nacional, Verusca! Verusca, eu estou apelando, devolve, Verusca... Verusca, daqui a pouco o Congresso vai estacionar aqui na frente do prédio e vai querer me levar junto... Como é que eu vou explicar a origem destes 21 centavos não-contabilizados e agora meus?

 

Não se comoveu. Quis saber o que é que teríamos para o almoço e se ela poderia chamar a turma do crochê para o jantar.

 

-Verusca, tu não fazes crochê...

 

De fato, não fazia. Mas desde que começou a receber o mensalão, vem patrocinando rodas de crochê, tricô e ponto cruz aqui no bairro. Aliás, queria saber como é que se chuleia o etamine de modo que fique dois centímetros para dentro do tecido sem vergar...

 

Eu estou respondendo pra ela, toca a campainha. É a CPI. Do ponto cruz. Uma senhora de uns 105 anos de idade queria saber a origem do cheque com que a Verusca patrocinara um chá beneficente. O documento era claramente uma cópia feita a mão de um folha de cheque que, estranhamente, mencionava o meu nome inteiro, bem como CPF, identidade e o número do meu sutiã. Percebi que a questão não era amiga quando a velhinha puxou uma agulha de crochê e apontou-a diretamente para o nariz da Verusca mencionando a palavra "fuças". Achei por bem intervir e sugeri que as duas se acalmassem e se sentassem no meu salão nobre principal enquanto eu fazia um chazinho de melissa.

 

Oito infusões mais tarde, encontrei o salão nobre completamente vazio. Segui o rastro das gargalhadas lá embaixo do prédio e me pendurei na janela para ver as duas saindo abraçadas, num Land Rover verde com um pano em cima. Mais tarde vim a saber que o tal do pano era uma toalhinha de crochê bordadinha de ponto cruz. Quem me informa diz que o avesso estava perfeito.



Escrito por Ge Bom às 09h49
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O vírus da Britney

Verusca Petrona acha que a Britney Espia.

 

-Como assim, Verusca? Tu achas que ela fica atrás da nossa porta para dar fé do que nós fazemos aqui dentro de casa?

 

Não, ela acha que, inicialmente, eu sou uma zebra. E que a Britney assistiu ao BBB5 inteirinho. Espiou à vontade e acabou votando no Jean Willys porque é a favor da libertação das baleias.

 

Percebendo que o assunto não chegaria a lugar nenhum, pousei ao lado dela, sutilmente, um espanador com uma seta indicando o mobiliário da casa. Fui tomar banho e voltei para ver o espanador agora com outra seta indicando uma foto minha. Muito bonita, por sinal. Era eu no baile dos cadetes da marinha, 1958. Eu de maiô, concurso “Garota Foguete de Ouro”. Sobre o chapéu, que imitava um submarino cortado por uma banana, notei um par de chifres. E dentro da banana a inscrição: “Ái só uót iú didi in de sãmer óv 1958”. Chamei a Verusca na hora.

 

-Verusca, eu quero te comunicar uma coisa: alguém anda nos espionando! E já faz quase 50 anos que isso acontece!

 

Mas ela estava muito ocupada, não podia me dar ouvidos naquele momento porque estava cuidando do resfriado de uma amiga importante. Arrasada, sem interlocutores à altura, quis saber da Verusca se eu podia ajudar com as aspirinas alemãs com que a dinastia Ming presenteara-me na véspera.

 

-Quem é Verusca? Alguém da tua roda de pagode? Alguém que freqüenta a tua laje?

 

Mas ela percebeu na hora a minha ironia finíssima, e revidou. Deixou cair uma panela de pressão inteira no meu pé, tomando o cuidado de antes enchê-la até a boca. Girou nos calcanhares e foi, sumindo na paisagem, dizendo para si mesma que a Britney agora Espirra.

 



Escrito por Ge Bom às 10h38
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INTERIORRRRR

Milcalice tem uma amiga chamada Tetê.

Tetê é, digamos assim, insuportável. Desocupada, vive na clínica tirando minha secretária dos seu afazeres. Até pedi a Milcalice que desse uns toques na Tetê, para que respeitasse os horários de trabalho, que ali se produzia, para ver se a guria se flagrava e não parecia tanto por lá.

- Vais ter que escolher: ou ela e eu ou nada...Tu é que sabes, Dr. Rph.

Fiquei com as duas. Achei por bem não arriscar meu pescoço. No mês seguinte, Tetê, que já era funcionária graduada de uma repartição pública qualquer e nem dava as caras por lá, e fazia uns bicos aqui e ali vendendo bugingangas para complementar o orçamento, passou a figurar também na minha folha de pagamento. Como diretora clínica.

- Milcalice, mas nem médica ela é!!!

- Prá tu veres, Dr. Rph, e agora ela vai mandar em ti. O mundo dá voltas mesmo...

Mas para demonstrarem suas boas intenções, me convidaram, ela e Milcalice para uma viagem. Tetê tinha comprado um carro novo, queria estrear. Era uma dessas camionetonas off-road que as pessoas compram mesmo sem terem fazenda, mesmo sem precisarem carregar nem um xaxim com samambaia dentro para colocar na sacada do apartamento.

Iam as duas para Minas Gerais, e queriam que eu fosse junto. Estrada Real, Cidades Históricas, um Brasil rural, rústico, que eu não conhecia. Mais ou menos como a novela Cabocla ao vivo. Poderia se uma ótima oportunidade.

Já na primeira parada, armaram confusão. Fizeram um pedido pantagruélico de uma comida que no estômago parecia pesar umas três toneladas. Depois de engolirem até o último pão de queijo, chamaram o garçom e disseram que o pedido tinha vindo errado. Era tutu de feijão e não feijão tropeiro.

- Tava tudo errado. Muito bom, mas tudo errado.

- Mas se estava errado, porque vocês comeram, senhoras? Porque não avissaram?

- Estamos avisando, oras. O senhor vai insistir no erro? Pode ser que a gente tenha achado alguns fios de cabelo no meio dos bolinhos de mandioca - sutilmente ameaçaram.

Eu tentando me esconder atrás de um arbusto de couve.

- Tudo bem, senhoras, eu já vou provideniar o outro pedido de vocês.

- Demora muito?

- Mais uns vinte minutos senhora.

- Mas que absurdo. Isso tá mais parecendo uma espelunca de beira de estrada. Erram no pedido e ainha querem nos fazer esperar mais vinte e cinco minutos!!

- Vinte, Milcalice, vinte.

- Pode suspender tudo, não queremos mais nada. Só a continha, faz favor.

A dona, constrangidíssima, achou que seria melhor não cobrar nada, para evitar um barraco ainda maior. E as duas sairam mais do que satisfeitas com o almoço grátis que tiveram. O golpe tinha funcionado.

De volta ao jipão urbano da Tetê, o motor não pegou.

- Empurra lá, Dr. Rph. Já aproveita e faz a digestão.

O motor pegou. Tetê acelerou e o jipão saiu correndo. Quando baixou a poeira, pude ver bem lá na frente o pára-choque do carro novo se afastando. Esqueceram de mim. Vou ficar aqui sentadinho no trilho do trem, enrolando um palheiro, esperando para ver se elas me pegam na volta. Daqui a uns quatro meses. no mínimo.



Escrito por Rph às 16h03
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ABAIXO DE ZERO

Milcalice acha que o freezer da clínica está pequeno demais.

- O congelador da mini-geladeira da mini-cozinha da clínica, tu queres dizer.

- Esse mesmo, Dr. Rph.

- Que bobagem é essa agora?

Nem adiantou eu argumentar com ela que o congelador era usado só eventualmente, numa emergência, ou para guardar alguma vacina quando precisasse. Passou correndo. Largou todos os compromissos da manhã, e passou correndo. Tinha uma reunião vital, inadiável, com o açogueiro mais antigo do mercado municipal.

Queria saber tudo sobre armazenamento de materiais perecíveis e temperaturas polares.

Lá pelo meio da tarde chega ela. Ela e um caminhão. Frigorífico. Que faria às vezes de congelador da mini-geladeira da mini-cozinha da clínica.

Eu, intrigado, fui atrás dos reais motivos e descobri tudo ouvindo fuxicos na copa. Milcalice quer ser congelada. Diz que leu nessas revistas para mulheres descasadas que as pesquisas na área estão muito avançadas, e quer porque quer ser congelada.

- Quer dizer que o material perecível és tu mesma, Milcalice?  E quá-quá-quá-quá-quá, rolei no chão às gargalhadas. Para quê... Levei uma chuleta suína no meio da cara.

- Milcalice, isso é coisa para um futuro distante, bem distante. Pode ser perigoso - argumentava eu, ainda meio zonzo, enquanto minha irredutível secretária folgadona era embalsamada e mumificada.

Meus apelos não surtiram o menor efeito. Nem as propostas de quintuplicar o salário, nem os protestos dos funcionários, nem os pedidos de fica dos pacientes. Nada. Me amarreia à porta da câmara frigorífica do caminhão, para tentar dissuadi-la daquela loucura. Só seviu para que ela chamasse a polícia para tirar o louco que estava bloqueando seu direito de ir e vir. Nesse caso, só o de ir.

Ela estava realmente decidida. Ia ser congelada.

- Tá, mas porque Milcalice, porquê?

- Tu já pensasse, Dr. Rph, daqui a alguns anos, eu ser descongelada, na flor da idade, e encontrar o senhor, velhinho, acabado, de bengala e esclerosado? Não posso perder a oportunidade de testemunhar esse momento histórico.

Se ainda fosse para descobrir a cura de uma doença rara ou para poder ser companheira de farra dos próprios netos, ainda admito. Mas para me espezinhar, me humilhar. Aí já era demais.

Deprimido, retomei meus afazeres. Antes de ir embora, passei na geladeira para tomar um pouco de água. Lá dentro Milcalice, dentro de um saquinho zip-lock, espremida entre uma costela de ovelha e as sobras do carreteiro de domingo, desafiava a natureza enquanto esperava a evolução da ciência. E segurava uma plaquinha debochada: "I'll be back".

Achei por bem deixar a luz da geladeira acesa.



Escrito por Rph às 15h36
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ARCA DE NOÉ

Milcalice descobriu sua vocação empreendedora. Quer diversificar seu negócios.

- Que negócios, Milcalice? E tu lá tens negócios?

- Dr. Rph, o senhor hein. O senhor é ruim mesmo. Eu também sou gente, Dr. Rph, eu quero crescer, quero ser alguém na vida.

Como se já não fosse. Mas aquela conversa toda me comoveu. Afinal, a menina era esforçada e merecia uma chance. Resolvi ajudar.

- Tá, Milcalice e o que vai ser dessa vez?

Queria uma linha de crédito para viabilizar um projeto. A logística estava toda pronta, só faltava mesmo era o capital.

- Vai ser revolucionário Dr. Rph, o senhor vai ver. Vamos abalar essa cidade. Nunca viram nada igual.

Pelo menos, ela era boa de marketing. Bom começo. Me convenceu. Empenhei a clínica e investi. Minha participação seria só injetando dinheiro mesmo, porque as sócias ela já tinha. Eram as amigas dela Milcélia e Milourdes.

Montaram a DASMIL. Que funcionaria... dentro na clínica. Transformaram tudo. Virou quase um shopping de luxo, que prometia atendimento diferenciado e personalizado para os clientes, produtos importados e pequenos mimos como manobrista, delivery, personal stylist, day-clinic, champagne e fois-gras.

Perdi a inauguração. Afinal, tinha sido contratado como vigia noturno. "E nem me aparece por aqui, não me envergonha perante essa sociedade emergente", recomendou a empresária. Mas dizem que foi um sucesso absoluto, badaladíssima, fotógrafos, colunistas e colunáveis.

Mas quando cheguei para assumir meu posto no dia seguinte, estranhei a movimentação. Madames chegavam sempre acompanhadas de cachorros dos mais variados tamanhos, gatos, iguanas e furões. Excentricidade, pensei.

Mas aquela bicharada estava fazendo maior sujeira por todo canto, uma barulheira, uma balbúrdia. Um pastor- alemão achou por bem arrancar a peruca do siamês de B.C.G., que por sua vez, já sinalizava em chamar a imprensa e armar um escândalo.

Decidi marcar uma reunião com Mlcalice para por aquilo tudo aquilo às claras. Foi só quando entrei na sala de exames, que entendi tudo. Milcalice estava terminando um ultra-som obsétrico. Num cachorro.

- Mas o que significa isso? Tu fazendo exames e com meu aparelho tudo bem. Mas em bicho?

- Não fala assim, Dr. Rph, a Doriléia Regina (era esse o nome do vira-lata), é muito sensível e está tendo uma gravidez muito difícil. Já pensou se ela ouve? Monstro!!

- Mas Milcalice...

- Shhhh!! Queres denegrir o nome que levei anos para construir. Dasmil, uma marca consagrada no mercado de atendimento exclusivo para animais de estimação de milionários.

- Mas Milcalice...

- E arruma a sala que a minha agenda tá lotada. Depois dá uma passadinha na sessão de banheiro e repõe o estoque de toilettes dos coelhos.

Mais uma vez me deixou falando sozinho. Era isso, Milcalice tinha transformado minha clínica numa multi-marcas sofisticada. Só que para caninos, felinos e afins. E o pior é que os lucros da Dasmil cresciam vertiginosamente. Tanto que Milcalice ia para Arábia nos próximos dias, assinar um contrato de parceria para atendimento dos camelos dos sheiks.

- E vê se não me deixa na mão, tu vais tocar tudo aqui enquanto eu estiver fora, Dr. Rph. Amanhã cedo, já voltas à tua rotina normal.

E voltei mesmo. Comecei o dia fazendo uma tomografia. Num bezerro recém-nascido.



Escrito por Rph às 17h50
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OFURÔ

Milaclice resolveu colocar uma banheira.

- Mas no meio do meu home-theater, Milcalice? De jeito nenhum, não tem essa.

Teve.

- Te liga, Dr. Rph, eu não tenho espaço na minha casa.

Às seis da manhã, uma equipe de construtores já circulava pelo meu apartamento, tentando adaptar encanamento e fundações para a dita da banheira. Porteiro do prédio e síndico, participando de tudo. Desconfio que rolou uma propina. Milcalice, capacete e bota sete-léguas, perdida no meio de quilômetros de palntas e projetos, comandava a operação.

Conformado, fiu tomar meu banho.

- Milcalice, não tem água quente!!

- Sabe o que é Dr. Rph, esse aquecedor de pobre que tu tens no teu apartamento, não dá conta de esquentar a água toda. Então tive que desviar o fluxo de gás para aquecer a água da banheira. Banho quente agora só de chaleira.

 Estava na frente do fogão, esperando a água ferver, quando chegou finalmente a banheira. Enorme.

- Mas o que é isso, Milaclice, parece uma piscina.

Era uma piscina. Semi-olímpica, mármore carrara, oito raias, plataforma de dez metros e um tobogã de 214 voltas (para embarcar nele era preciso ir até a cobertura). Era maior que a piscina do condomínio. E eu seria o salva-vidas. E não te esquece: "ACESSO PROIBIDO PARA FUNCIONÁRIOS!!", bradou.

Depois de tudo pronto, chegou Milcalice para o banho inaugural. Meia-luz lilás, velas, óleos e essências, e um CD de múscica house hindu. Milcalice ligou a hidro e se pôs a desfrutar do giga-spa que tinha instalado no meio da minha casa.

Não demorou muito, e toca a campainha. Num esforço heróico, consegui atravessar a densa espuma aroma margarida-do-bosque que invadira tudo, e cheguei até a porta. Era o vizinho de baixo. Reclamava do barulho:

- Meu amigo assim não dá, o barulho do motor dessa banheira parece um caminhão de concreto.

Exatamente. O motor da banheira funcionava ligado a um caminhão de concreto estacionado bem em frente ao prédio, devidamente licenciado pela prefeitura, que já tinha desviado o trânsito pela rua de trás. Felizmente foi tudo resolvido com o vizinho. Milcalice disse que todos os moradores do prédio poderiam usufruir da banheira a hoara que quisessem. Teriam acesso livre ao meu apartamento. Já estava imaginando a criançada, a gritaria e as churrasqueiras portáteis.

Poucas horas depois, Milcalice sai da água, tira as braçadeiras da Minnie, se enrola num robe de algodão e vai. Va dizendo que banheira é assim mesmo, que não vale o investimento, que agente acaba usando uma vez só para ver como é e depois enjoa, e que estava cansada daquela função toda.

- Parente encostado é o que mais aparece nessa hora. Pode ficar, leva prá ti.

- Como assim? Já está aqui, Milcalice.

Desceu pelo elevador, resmungando impropérios, de que eu era mesmo um mal-agradecido e que eu se quisesse que arrumasse aquela bagunça toda.

Já se passaram quinze dias. Acho melhor eu desmontar essa banheira, antes que a vigilância sanitária venha aqui tirar satisfações de porque está escorrendo um líquido verde-musgo viscoso e mal-cheiroso pela escada. A água apodreceu.



Escrito por Rph às 17h16
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MARINHEIRO SÓ

Milcalice aproveitou um feriado desses e me convidou para um passeio de lancha.

- Tens que conhecer a minha lancha nova, Dr. Rph. Troquei pelo jatinho da Colcci.

Dia bonito, mochila, boné, protetor solar, cesta com galinha e farofa, rumamos para a marina. Na realidade, a Marina era uma tábua de arrimo, que ia da areia da praia até a borda da embarcação. A lancha era realmente uma belezinha, tirando um ou dois furos no casco, mas...

- Para quê os remos, Milcalice?

- É só no caso de acontecer algum problema com o motor, Dr. Rph. Credo, que aflição! Relaxa e aproveita o passeio.

Milcalice foi dar partida no motor da lanha. Nada. Nenhum barulhinho. Nada. E nós ali, todo mundo olhando, eu tentando não perder a pose. "Bom, vai ver, esqueceu de botar gasolina. Tadinha, vou colaborar com cinqüentinha", pensei cá comigo. Pelo menos, garanto nosso dolce far niente al mare.

- Tó, Milcalice, enche o tanque...

Veio o rapaz, trouxe os galões e nada. O motor continuava a não dar sinal de vida. Foi quando percebi o que se passava de fato.

- Milcalice, a lancha NÃO TEM motor!!!!

- Ufa, Dr. Rph, ainda bem que a gente trouxe os remos. Se não, já pensou, necas de voltinha hoje.

Peguei os dois remos e me pus a conduzir a lanha. Milcalice, que já se esticava no deque da proa passando bronzeador, gritava sem parar indicando o caminho.

- Vai aí, Dr. Rph, eu sou o leme e tu és o motor. Vamos para aquela ilhazinha ali.

Com os óculos escuros tapando a cara, esqueceu do mundo. E eu ali, rema que rema. Depois de uns goles de vinho branco e umas torradinhas com caviar, ela resolveu se manifestar:

- Ainda não chegamos? Que lerdeza, hein...

Tirou da sacola de praia um chicote, onde se lia em vermelho "just in case". Eu é que não ia pagar para ver.

E o vento foi aumentando. E o mar foi ficando revolto. E o céu foi escurecendo. E eu fui ficando mareado. Até que não agüentei. Passei mal. Perdi a dignidade. Fui ao mar com todo o café da manhã. Ela, trantornadíssima porque o MOTOR tinha pifado e, ainda por cima, tinha sujado um pouquinho a lataria do quase-iate, jogou minhas coisas todas na água. Não tinha nem mais um moletonzinho para usar se o tempo esfriasse. E o tempo esfriou. Eu molhado, tremendo de frio, não sentia mais os meus braços. Parecia que eu tinha dessatarrachado os dois e deixado no carro.

Até que, depois de ela ter mudado de idéia umas três vezes, aportamos finalmente numa prainha tranqüila, quase deserta. Aliás, bem deserta, porque não tinha nem água para aplacar a sede.

- Pra quê bar, com essa água toda aí na tua frente? Tu és muito mal acostumado mesmo, né o Dr. Rph. Toma aí e vê se me deixa pegar uma corzinha.

Foi quando desabou o maior temporal. Um verdadeiro dilúvio.

- Ah, não vai dar mais para encarar não, Dr. Rph. Eu vou pegar um táxi aqui na vilazinha de volta para a civilização.

- E a lancha, Milcalice, vai ficar aqui largada?

- Claro que não né, Dr. Rph. TU vais levar de volta para Marina. A remo. E não te esquece de dar uma gorjetinha pro Fumaça guardar na garagem.

Chuva inclemente. Treze horas depois, chegam os retalhos de mim na marina. Era feriado. Tinha fila para guardar a lancha. Peguei a senha 29. O Fumaça estava chamando a 3. Tinha que esperar dentro da lancha. Num mar mais revolto que o da Patagônia.

Como fui o último, o Fumaça me pediu uma carona. Conectou a lancha da Milcalice no meu carro e lá fomos. A garagem da lancha era a minha. No meu prédio.



Escrito por Rph às 16h18
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AM PM

Verusca Petrona esteve muito perto de engrossar as fileiras do desemprego no Brasil. Passei um dia inteiro tentando falar com a pessoa dela, mas ela me dizia que tinha mandado a pessoa comprar cigarros, depois que a pessoa tinha ido ao banheiro, mais tarde a pessoa estava botando o lixo etc.

 

Não demorei a perceber que ela e a pessoa dela tratavam-se da mesma entidade e, logo, que não poderiam andar separadas uma da outra. Marquei uma audiência. Ela me deixou duas horas mofando no sofá da sala e então me mandou “entrar”. Ficamos as duas espremidas no banheiro social.

 

-Verusca, eu não sei se vamos continuar juntas.

 

Ela perguntou quando é que eu pretendia deixar o apartamento.

 

-Não, Verusca, não é isso. É que eu preciso de alguém que durma no emprego. Eu compreendo que tu és uma funcionária muitíssimo dedicad...

 

Não cheguei a concluir a frase. Ela deixou a audiência subitamente, dizendo que estava resolvido, que ela agora ia dormir no emprego. Foi até a porta do banheiro e gritou “próximo”.

 

Mal saí do banheiro, ouvi um ronco. Voltei. Era a Verusca, sentadinha na pia e escorada no espelho, pendurada na argola da toalha. Dormia profundamente, de boca aberta, embaçando o meu espelho adquirido em leilão de artes.

 

Olhei para um lado, para o outro, nada. Ninguém para me socorrer. A Verusca nunca tinha dado uma descambada dessas, vai ver estava tomando algum remédio forte, coitada.

 

Mais uma volta pela casa e a Verusca dormia de bruços sobre uma estante. Pisquei e ela agora tinha arrastado os livros para a direita e para a esquerda e encontrava-se abraçada a um macaco de louça, ambos sobre um almofadão de seda que a dinastia Ming mandou-me pelo Sedex.

 

Quando consegui pegá-la sonolenta, mas acordada, aconteceu um fato insólito.

 

-Verusca, estou muito preocupada com esse teu excesso de sono. Eu não sei o que fazer...

 

No meio da minha fala, o despertador tocou. Que eu desse licença porque ela tinha que ir dormir. Encheu o tanque com travesseiros, sentou-se de lado, desviando assim a coluna dela da torneira, e imediatamente começou a roncar. Desejei imensamente encontrar nela um botão escrito VOLUME...

 

Eu não disse mais nada. Esperei anoitecer para ver como é que a Verusca ia conseguir dormir, afinal aquela seria a primeira noite dela na minha residência. Eu estava armada até os dentes, conforme exigência dela própria: lençóis brancos engomados, colchão americano triplo, oito litros de leite, três vidros de mel e o CD do Kiss versão “Nana, nenê” unplugged.

 

Eu ainda estava esticando o lençol quando a Verusca passou reto por mim. Salto, argolas e meia soquete.

 

-Verusca, tu vais... .... .... .... sair?!?!?!?!

 

Ia. O combinado dela comigo era dormir NO emprego. Até por isso ela estava ME fazendo o favor de passar a noite em claro para poder TRABALHAR amanhã.

 

E foi, sem mais delongas.



Escrito por Ge Bom às 10h01
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